sábado, 21 de abril de 2018

A Globalização é Irreversível?

“A globalização não é um conceito sério, nós americanos a inventamos, para melhor dissimular nossa entrada econômica nos outros países”
John Kenneth Galbraith


Os liberais propugnam que a globalização seria um “fenômeno” irreversível e “necessário” para a modernização e competitividade, na atualidade, para a economia dos países. Oque em absoluto não é verdade. Contudo, antes, é salutar compreender oque é “globalização”, e os efeitos desse fenômeno no mundo e por desiderato nos países submetidos.


A "globalização" é um processo atual, que não se confunde com o livre-mercado, que se inicia com as grandes navegações e atinge seu auge em fins do Séc. XIX. 

A internacionalização do capital como forma comercial e de crédito se inicia com as grandes navegações, já a internacionalização do capital produtivo veio ocorrer após a Primeira Revolução Industrial, com a implantação no exterior das filiais das indústrias inglesas acompanhando a divisão internacional do trabalho proposta pela Inglaterra.  A consolidação veio ocorrer a partir da Segunda Revolução Industrial com a internacionalização das grandes empresas aprofundada pela concorrência entre as grandes potências. (TAVARES, 1998: 41)

Oque caracteriza a globalização, é a atuação conscientemente política de subjugação dos países periféricos pelos países centros por intermédio do capital financeiro, embora não só, mas determinantemente.

O mercado mundial, vigente a globalização, é atualmente dominado pelas aplicações de curto prazo e se movimentam pelo mundo em busca de lucros rápidos através da mudança nos preços dos ativos. O crescimento na escala de especulação em relação às outras transações é marcante. Em 1971, cerca de 90% das transações estrangeiras visavam financiar o comércio e os investimentos de longo prazo e somente 10% destinavam-se a especulação financeira propriamente. Atualmente, os percentuais se inverteram e cerca de 90% das transações são especulativa e o volume é tão grande que supera as reservas estrangeiras dos componentes do G7.

A pura e simples internacionalização do capital com seu auge no início do século XX, foi muito maior do que na atualidade, e por si só não pode, nem caracteriza o processo de globalização. Nesta época, o mundo inteiro participava de uma civilização mercantil integrada. Por volta de 1913, o comércio internacional representava grande percentual do PIB de vários países da Europa.  Dentre estes países encontravam-se a França com 35,4%, a Alemanha 35,1% e o Reino Unido com 44,7%.

"Nessa fase, que vai até ao final da década de 1920, o capital exportado pelas principais potências econômicas européias, tanto em forma de investimentos diretos ou em forma de ações, atingiu níveis percentuais do PIB que não foram ultrapassados até hoje. E foram esses capitais que ajudaram a construir a América do Norte, Argentina, Austrália e África do Sul considerado os “tigres econômicos da Era Vitoriana." (HIRST,1998:101-20)

A guisa de comparação a China, país de plataforma exportadora, em 2006, suas exportações correspondiam a 37% do PIB, enquanto suas importações alcançavam 32% do PIB. Estes valores colocam a China como uma das economias mais abertas do planeta, principalmente se comparada a outros países de dimensão continental, como Brasil, Estados Unidos, Canadá, cujos fluxos comerciais (exportações + importações) correspondem a menos de 30% do PIB. Tomando o Brasil, como parâmetro, seu comércio exterior representava 20% do PIB (percentual relativo a 2006).

Ou seja, o Séc. XIX foi a éra do laissez-faire. Seu auge se inicia em 1846, com a revogação da Corn Laws, a Grã-Bretanha deu uma guinada decisiva para o regime unilateral de livre comércio que se conclui na década de 1860. Entre 1860 e 1880, muitos países europeus aboliram substancialmente sua proteção tarifária. Ao mesmo tempo, a maior parte do mundo foi obrigado a praticar o livre comércio por imposição do colonialismo e mesmo países nominalmente independentes como os ibero-americanos por força de tratados desiguais. Exceção foi os EUA, que conservou nesse período elevadas barreiras alfandegárias. Entretanto, os EUA não representava ainda parcela significativa no comércio mundial.

Mesmo no período subsequente a I Guerra, e mesmo até o advento da II, o intervencionismo estatal era muito mais restrito do que hodiernamente. Exemplo é que até os anos 30, o equilíbrio orçamentário (doutrina hegemônica na época) quanto ao alcance tributável eram bastante limitados, se quer havia imposto sobre a pessoa física e jurídica, oque estreitava muito a política orçamentária, dificultando investimento estatais para seu desenvolvimento. Na maioria dos países não havia bancos centrais até o começo do séc. XX, de modo que políticas monetárias eram exíguas. Oque impossibilitava a implementação de "programas de crédito dirigido" tão exitosamente aplicados em países como o Japão, Coreia, Taiwan e França.

Antes da II Guerra, medidas como nacionalização, planificação da economia, práticas adotadas com sucesso no pós-guerra por países como: França, Áustria e Noruega, eram impensáveis! Esse foi o período mais próximo do livre comércio que o mundo já teve e que provavelmente nunca mais terá.


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quinta-feira, 29 de março de 2018

A Democracia Verdadeira (direta) contra o Parlamentarismo (oligarquia).

O artigo que se segue são conclusões de nacionalistas helênicos (não se trata do Aurora Dourada), sobre o regime político liberal, que por má-fé chamam de "democracia", quando se trata de uma oligarquia. Ao mesmo tempo que desmente a falácia liberal de que um sistema de eleição pelo voto seria por si só democrático, nada mais distante da realidade e desmentido pelo próprio Aristóteles. É um artigo que julgamos altamente pertinente e que o leitor poderá observar terem, os nacionalistas gregos, chegado as mesmas conclusões que nós castilhistas há mais de um século atrás.... e isso não é por acaso, posto que os castilhistas beberam direto nas fontes gregas.
Editorial.

A Democracia Verdadeira (direta) contra o Parlamentarismo (oligarquia).

"Se um povo deve saber o que é a democracia, é o grego que a criou. No entanto, muitos gregos ignoram o que é a democracia e ignoram que o parlamentarismo é um sistema anti-Democrático que nada tem a ver com a democracia.

Aristóteles em seu livro " Politica " diz: “democraticon men to klerotas einai tas arxas to de airetas oligarhikon”. que quer dizer: onde os senhores são "eleitos" por votação,  lá o sistema é oligarca. O que isso significa será explicado neste texto.

Desde que as pessoas se juntaram em sociedades organizadas em Estados até os presentes dias, o problema do poder continua a ser o mesmo: quem decidirá sobre o público?

Poucos ou todos os cidadãos?

Cada geração resolveu este problema de forma diferente.

Da resposta que ele deu, as três principais políticas: a monarquia, a oligarquia e a democracia.

O parlamentarismo é uma forma de oligarquia criada na Inglaterra e visa contornar a vontade do povo, e todas as decisões importantes a serem tomadas pelos poucos. Como se pode ver hoje em dia, os poucos que decidem são "acidentalmente" sempre ligados às ideologias federalistas e trabalham para quebrar a consciência nacional dos povos. No Parlamento, nenhuma decisão importante é tomada pelo povo. Os antigos gregos disseram que onde há partidos e eleições o sistema é oligarca, e onde há referendos populares o sistema é democrático.

Os eleitores de hoje estão a tentar encontrar uma solução para os fins da crise sem saber que, quando as partes votam nas eleições, eles não fazem qualquer decisão, mas eles fazem decisões para os políticos, e mais especificamente para um sistema político podre de escravidão...

Como já foi mencionado, Aristóteles em seu livro " Política " diz: " Dēmokratikón é o klērōtás é o primeiro, o d ' airetás oligarchikón ". que é: onde os Senhores são " eleitos " por votação, lá o sistema É o oligarca. Nos estados democráticos, todas as decisões importantes foram tomadas pelo povo em referendos, e os escritórios da cidade foram levados por cidadãos sortiados por curtos períodos de tempo, obrigados por lei a fazer exatamente aquilo que o povo decidiu. Sem ter a oportunidade de mudar a decisão do povo, ou de fazer o contrário. Enquanto os Senhores são "eleitos" decisões são sempre tomadas pelo filo de políticos, e nunca o povo. Este é precisamente o ponto crucial que todos devem compreender: que na democracia as pessoas decidem sobre as questões próprias e nunca votam em alguns políticos para que os representem ". Enquanto na oligarquia as pessoas nunca decidem sobre questões, mas todas as questões são decididas por um pequeno grupo de pessoas que "representam" as pessoas e eleitas pelo processo eleitoral. 

Na Europa, foi observado que 80 % das decisões tomadas nos parlamentos dos países são contrárias à vontade da maioria. O que é importante é precisamente quem toma as decisões: as pessoas ou os políticos (que estão sempre ligados a interesses e manipulação e praticamente, na maioria dos casos, agem contra a vontade das pessoas que votaram nelas).

Uma expressão que corretamente atribui ao parlamento é a expressão: "consenso da oligarquia” ou seja, que as pessoas aceitam ser governados pelos poucos (políticos) a quem no dia das eleições ele concedeu todos os seus direitos políticos e por 4-5 anos as pessoas ficam sem direito político. Mesmo que os políticos enganem as pessoas em todos os seus compromissos políticos pré-Eleitorais, as pessoas já não têm o direito de demitir políticos corruptos.

Hoje é imperativo ter soberania popular com o estabelecimento constitucional de democracia real (direta). A Suíça e a Venezuela são os únicos países do mundo que tem uma constituição democrática onde as pessoas decidem questões importantes em referendos. Ao mesmo tempo, o parlamento decide sobre questões menores. O que importa é importante para que as pessoas decidam num referendo é julgada pela recolha de assinaturas a fazer num determinado período de várias semanas, para que possa levar a um referendo a questão que pretende propor. A Constituição democrática da Suíça foi iniciada por John Kapodistrias como ministro dos estrangeiros russo.

Nas últimas décadas, o parlamentarismo conseguiu dar ao governo da nação uma minoria internacionalista de anthellḗnōn. Tornou-se claro hoje de uma forma ainda mais enfática que só com a democracia (direta) é a vontade do povo e todas as decisões estão em consonância com a verdadeira vontade da nação.

Se nós fizermos uma retrospectiva, vamos observar que a Esparta antiga, e Atenas antiga tinham democracia direta. Em Esparta, as decisões mais importantes foram tomadas pela apella (Assembleia do povo) e, em Atenas, as decisões mais importantes foram tomadas pela Assembleia do povo. Em Esparta, a presença dos dois reis e cinco regentes era mais uma personagem honorária. A verdadeira administração era o povo com as decisões dos apéllas.

A nova ordem de coisas inteligentemente nomeou o atual sistema oligárquico de " Democracia parlamentar ", com esta manobra, poucos entendem que não é uma democracia. Eles pensam que há muitos tipos de democracia, uma das quais é o parlamentarismo.

Se a Grécia tivesse hoje uma verdadeira democracia, não esta chuva de decisões anthellēnikṓn que tendem a ser a eliminação biológica da nossa nação e a sua fidelidade aos centros de decisão estrangeiros.

No entanto, a maioria dos gregos, infelizmente, continuam a acreditar hoje, devido à ignorância de que o parlamentarismo é um sistema grego e democrático baseado na antiga democracia ateniense.
Dois importantes parâmetros de democracia real são anaklētótēta e chamar.

Anaklētótēta significa que, quando alguém foi colocado por uma nação em alguma área de responsabilidade, se não faz exatamente o que é definido, é retirado desta área de responsabilidade. Não existe tal procedimento no Parlamento. Qualquer fraude ou quebra de promessas eleitorais, e se um político do sistema parlamentar faz, quase nunca é removido, porque é apoiado pelo próprio sistema oligarca.

O sorteio é o processo pelo qual os gestores dos setores de gestão são selecionados por períodos curtos. No Museu do antigo mercado no pórtico de átalo, em Atenas, há o (kleroterion) onde os cidadãos atenienses que iriam servir em vários lugares públicos na cidade de Atenas foram escolhidos aleatoriamente. Na Grécia antiga, alguém que, por exemplo, foi responsável pela gestão financeira da manutenção dos navios, depois de estar preparado para esta posição, estava a assumir por um curto período de 2 meses que começou um ano após o sorteio, a Que foi obrigado a cooperar com os seus antecessores anteriores, a fim de "aprender os segredos" deste sector, de modo que, em cooperação e com outros, eles adequadamente o que o município já tinha decidido. Não tinham o direito de tomar as suas próprias decisões, exceto para realizar corretamente aquilo que tinha votado nos referendos e, por isso, o município decidiu.

A aplicação de sorteio hoje poderia ser feita não só para lidar com as áreas de responsabilidade a nível pan-Helénico, mas também na união, universidades, etc. Envenenado por partitocratas.


A proposta do Estado para a Grécia de hoje

A proposta de hoje é que a Grécia tenha um sistema democrático de estado semelhante à Suíça. Ter uma democracia real (direta) com referendos do povo sobre todas as questões muito importantes (depois de recolher assinaturas, dentro de um determinado período de semanas, para definir as questões verdadeiramente importantes) e, ao mesmo tempo, ter o parlamento com membros eleitos, Quem decidirá sobre todas as questões menores. As questões que serão consideradas mais importantes por causa da recolha de muitas assinaturas serão destinadas a um referendo do povo em certos momentos, e irá, em particular, ter como objetivo a eleição de eleições nacionais, municipais e europeias para a sua preparação. Duas urnas (um para as questões de referendos e uma para estas eleições: eleições nacionais, municipais e européias. Assim, à medida que os referendos serão realizados ao mesmo tempo que as outras eleições, terá custos mínimos para o estado.

As questões secundárias, para além do Parlamento, podem ser votadas por 1.000 ou 2.000 cidadãos, por exemplo, que poderiam ser utilizados por períodos curtos, por exemplo, por um quarto. O voto destes cidadãos é absolutamente indicativo da vontade de toda a sociedade. É indicativo que as empresas de sondagem quando fazem investigação são, normalmente, cerca de 1.000 pessoas. Por conseguinte, os organismos de 1.000 ou 2.000 ou mais cidadãos atribuirão precisamente a vontade do povo e podem substituir a maioria dos drastrēriótētes do Parlamento. Por isso, o papel da assembléia será mínimo, e a parte superior será sempre detida pelo povo, quer por referendo, quer por votos dos órgãos do povo."


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quinta-feira, 15 de março de 2018

Marcha de Titãs - Breviário Histórico do Nacionalismo Brasileiro.

“Que todos os homens lembrem aos seus descendentes, que também são soldados, que não devem desertar das fileiras de seus antepassados ou por covardia recuarem.”

Platão
No seu primeiro século de formação, a nacionalidade brasileira se forma sob o influxo lusitano, que será dominante em um processo assimilatório da população indígena do país. A presença normanda em terras brasileiras em contra-posição ao português, será um fator preponderante, que fomentará essa precocidade nacional no brasileiro, em oposição ao elemento nórdico e protestante na conquista da terra, de onde teve que arrancá-la "a polegadas" dos normandos que nela se enraizava. Findo o qual, o Brasil já estava feito. A subsequente invasão holandesa, apenas patenteia de forma irrefutável essa nova nacionalidade que se anuncia ao mundo, a brasileira, que não se deixa absorver e antes repele o invasor cruel e herege. Antes atestada pelo invasor holandês atônico que não esperava resistência de simples coloniais e que registra estarem lutando contra um povo "extremamente nacionalista" são as palavras expressas pelo cronista holandês Johne Boer na época.

Ao sul, no que pese alguns reduzirem as ações dos mamelucos de Piratininga a meros preadores de índios, a realidade das coisas foi bem outra. O padre Francisco das Chagas Lima, quando das ações dos paulistas em Guaíra, no atual Paraná, a registra em termos de defesa nacional. O padre lembra que os espanhóis tinham o intuito de assegurar-se na posse daqueles territórios, quando no meio do século XVII, "estabeleceram sua Ciudad Real na embocadura do Piquiri, e Villa Rica, na márgem meridional do Itatu. Povoações que foram demolidas pelos antigos paulistas.". E as ações desses mamelucos não cessam, vão a Bolívia e destroem Santa Cruz de la Sierra. Assim, se a motivação dos paulistas fosse o único e sórdido interesse de cativar índios, como explicam seus detratores. Como explicar as expedições, como essas de 1676 e 1691, contra Villa Rica e Santa Cruz de la Sierra, cidades urbanas, onde não havia índios a cativar? Explica Lopo Saldanha, homem de Estado, feito no segredo da realidade, que bem conhecia as verdadeiras motivações dos paulistas. A defesa daquelas terras, em puros feitos de defesa nacional.

Serão esses mesmos mamelucos descidos do planalto de Piratininga, que anos mais tarde, fixarão as fronteiras ao sul do Brasil, desfazendo o Tratado de Santo Idelfonso e varrendo a presença castelhana do Jaguarão ao Ibicuí. Findo o qual, com o Tratado de Madrid, genialmente conduzido pelo brasileiro Alexandre Gusmão, praticamente delineia as fronteiras atuais da pátria brasileira.

Nesse primeiro momento, o Brasil já nasce com um Estado constituído que é o português, e dele deriva a tradição católica que será elemento essencial de unidade contra normandos e holandeses. As uniões de sangue entre portugueses e tupis também será essencial na arregimentação das tribos para levantar os exércitos coloniais em contestação a presença normanda. E assim não teremos no Brasil, o estabelecimento de castas, de populações segregadas, vivendo a parte, como se observou nos regimes coloniais de Espanha, Holanda e Inglaterra.

Expulso o holandês (1654) e finda a União Ibérica, o Brasil já estava feito, com seus elementos existenciais bem definidos. Contudo, sobrevêm uma nova fase colonial, a de exploração da sua metrópole já refém da Inglaterra, a viver parasitariamente do Brasil. Desse momento em diante, o nacionalismo brasileiro se pautará na busca de um Estado Nacional (aspecto material) que expresse a defesa dos interesses econômicos do país. Diogo Lopes Santhiago, que escreveu História da Guerra de Pernambuco em 1661, registra:
“[....] Passado o primeiro momento de entusiasmo, os reinóis quiseram reassumir a sua atitude de superioridade e proteção. Data daí a irreparável e irreprimível separação entre pernambucanos e portugueses."

E disso resultará a histórica declaração no Senado de Olinda em 1710, conclamando os pernambucanos a se libertarem do julgo português, declarando solenemente, pela primeira vez nas américas, a independência do Brasil, manifestando-se pela instituição de uma República nos moldes aristocráticos dos Estados republicanos da Holanda e Veneza. Independência e República no mesmo discurso, nada mais nada menos é o que se estabelece nessa memorável assembléia.

Todas as outras revoltas nativistas ocorridas no Brasil, não por acaso, ocorridas após o fim da União Ibérica, momento em que Portugal se volta para o Brasil numa exploração predatória, se opera sob reivindicação de matiz republicana. Assim sentencia Manoel Bomfim:
“[....] verifica-se que, justamente um século antes das luta que se converteu em reivindicação nacional, justamente nos dois centros de formação brasileira, se desencadearam, ao mesmo tempo, lutas explicitamente nacionalistas: por parte dos paulistas que, brasilicamente, designavam os portugueses como forasteiros; por parte dos pernambucanos que, desdenhosamente, nomeavam os reinós de mercantis – mascates, e chegaram a falar em independência.... Admita-se no entanto, que tais lutas ainda não sejam esforços para independência: é inegável que nos fins do Séc XVIII, com os companheiros de Tiradentes, há uma explícita reivindicação de emancipação nacional. Notemos ainda, que em todos esses movimentos, a forma esboçada política é a da República. E assim se forma a nossa tradição de autonomia nacional.”

Esse sentir nacionalista, brasileiro, é expresso pela escola arcádica brasileira (1768), note mais uma vez a precocidade nacional brasileira, é a primeira escola literária de teor nacional nas américas! Herdeiros da pregação republicana de Felipe dos Santos com a Revolta de Vila Rica (1720) e eles próprios: inconfidentes mineiros. Com eles a história colonial é valorizada, pondo a colônia como centro das atenções em meio à descrição da paisagem tropical do país e a inserção do índio como herói. Assim delineando uma literatura nacionalista brasileira.

O caráter republicano do nacionalismo brasileiro, se contrapõe a monarquia, seja com Portugal, seja após 1822, que opera em defesa dos interesses portugueses, ou mais do que isso ingleses. Portugal aparece como mero intermediário, atravessador, dessa relação em franco benefício da Inglaterra. Mesmo após a independência política de 1822, a reivindicação de emancipação econômica ainda será o principal reclame dos nacionalistas brasileiros sob matiz republicana nas revoltas que se seguirão ao longo do I e II Império.

O movimento republicano, sob influxo positivista, é reflexo direto das reivindicações nacionalistas da época. Reivindica-se um Estado forte, interventor, militarista, e científico capaz de tirar o Brasil do atraso na qual a monarquia afundara o Brasil com sua política liberal. Na literatura, Lima Barreto representa o típico nacionalista brasileiro do período, positivista, na figura de seu personagem Policarpo Quaresma, embora sob crítica velada, julgando-os como inocentes úteis nas mãos de Floriano. Oque não eram em absoluto. Mais realista, é o próprio Floriano Peixoto, personificação do homem nacionalista brasileiro, enérgico e dotado da lendária impavidez tupi, enfrentando e contrariando as pretensões imperialistas das potências da época. A formação dos batalhões patrióticos formados pelos clubes jacobinos, com adesão massiva da população aos ideais republicanos.

A Revolução Acreana, em 1907, foi um dos mais belos episódios da nossa história, a população se mobilizou na defesa do território em disputa, uma expedição de poetas e voluntários partem para a campanha no Acre, sem preparo é desbaratada logo no primeiro combate, as energias não se desvanecem, segue Plácido de Castro que irá organizar junto aos seringueiros locais um verdadeiro exército independente, o próprio Getúlio Vargas, então cadete do exército, que acabara de pedir baixa, suspende o pedido, e segue para o mato-grosso e lá fica de prontidão aguardando ordens de seguir para o Acre. Contudo, vacilante, o governo federal não envia tropas, e  Plácido de Castro juntamente com os aguerridos seringueiros após penosa e heróica campanha, batem sozinhos as tropas bolivianas e arrancam o Acre para o Brasil.

Com a Revolução de 30, o movimento Queremista e posteriormente com a campanha o "Petróleo é Nosso!" especialmente, as manifestações populares se mostram cada vez mais vivas em defesa do nacionalismo, em autênticos movimentos de massas, personificados em Getúlio Vargas:
"Só os países economicamente fortes são verdadeiramente livres. E é essa liberdade que desejo dar ao meu país". - Getúlio Vargas.

Nesse período o Brasil se industrializa, ainda que parcialmente, não atinge o apogeu industrial e tecnológico almejado por Vargas e os nacionalistas em torno dele. A instituição do Estado Novo (1937) foi a fundação de um autêntico Estado brasileiro, original, plasmado no castilhismo, sem copiar modelos externos, sonhado desde a proclamação da República: um Estado forte, militarizado e científico. Porém esse Estado, terá vida curta. Não cumpre se quer uma década de vida, e é vítima da traição fomentada pelos EUA no seio das forças armadas depondo Getúlio em 45. O imperialismo ganha contornos mais sutis e ao mesmo tempo mais poderosos com o aliciamento de membros dentro do Estado e das forças armadas, concomitante a extensão das relações das multinacionais com nacionais como representantes de seus interesses comerciais dentro do país. Caso ilustrativo é o de João Neves da Fontoura, que traindo Getúlio, seu ex-ministro das relações exteriores, se associou a Standart Oil, como presidente da Ultra-Gás, sendo ferrenho opositor da campanha do "O Petróleo é Nosso!" e militando pela UDN pelo resto de sua vida política, fazendo a defesa dos interesses estrangeiros contra o Brasil.

Desse momento em diante, o PTB será o bastião de defesa do legado getulista, condensando em torno de si as forças nacionalistas. O PTB eleição pós eleição cresce em todo país. A UDN frustrada em seus planos em 54, com o inesperado desfecho de Getúlio e incapaz de vencer nas urnas, recorre sistematicamente ao golpe para ascender ao poder por intermédio de uma ála liberal do exército . Nas eleições de 62 o PTB emparelha com o PSD como os 2 maiores partidos do país, com a projeção de já nas eleições de 65 vir a se tornar o maior partido do país e com Brizola sendo francamente favorito para presidência. Mais uma vez, com auxílio dos EUA, a UDN juntamente com todos os outros principais partidos se mancomunam contra o PTB, e desferem o famigerado golpe de 64. Goulart e Brizola, como outros trabalhistas, são forçados ao exílio, empresários e militares nacionalistas são perseguidos, exonerados, cassados, empresas nacionais são fechadas, quando não sabotadas. Os setores da indústria de bens de capital, são entregues as multinacionais. Nos governos militares, o salário-mínimo é defasado, cai o poder de compra da população, decai o mercado interno, houve um exponencial aumento do endividamento externo, o sucateamento do ensino público a partir de 1972, o êxodo rural com o conseqüente inchaço populacional das grandes cidades e a explosão da criminalidade urbana e a favelização.

Excepcionalmente, ao contrário dos outros presidentes-militares, o  governo Geisel, no que pese não chegar a se caracterizar como nacionalista, emplaca vários aspirações nacionalistas, como a reserva de mercado do setor de informática, a soberania do Brasil sobre sua plataforma marítima e as 200 milhas marítimas (ZEE - Zona Economicamente Exclusiva) que suscitou a chamada "guerra da lagosta" por não permitir barcos franceses pescarem dentro da nossa ZEE, além do início do programa nuclear com fins militares, e o  desenvolvimento da indústria bélica brasileira, o Brasil chegou a ser o sexto maior fabricante de armas do mundo.  Em grande parte Geisel aproveitou o programa de Goulart e implementou. As razões de Geisel ter se aproximado de um governo nacionalista, algo surpreendente pelo seu histórico liberal, foi, talvez, sua passagem a frente da Petrobrás que tenha lhe dado uma visão mais técnica e necessária para o desenvolvimento nacional, oque é muito claro na incorporação das 200 milhas marítimas.   

Ante a ameaça de desenvolvimento da tecnologia nuclear pelo governo militar, os EUA por intermédio de seus agentes internos, pressionam pelo fim do regime. E para anular o ressurgimento do ideário nacionalista de Getúlio, encarnado na figura de Brizola. Criam o PT para esvaziar o Trabalhismo-getulista, e não basta-se retiram a histórica legenda PTB do Brizola, que restará por fundar o PDT. Nas eleições de 89, Brizola por muito pouco e mesmo sob um suspeitíssimo resultado eleitoral, não consegue ir ao segundo turno. Vence Fernando Collor que inicia o processo de abertura econômica e que terá nos governos do PSDB de FHC seu auge, levando a aumentos cada vez maiores de concentração de renda e um acentuado processo de desindustrialização.

Com o governo Lula (2003-2011), sua política foi muito similar a do Geisel, talvez não por acaso o elogio do Lula ao período militar. Seu governo manteve o favorecimento da oligarquia financeira que se instalara com o PSDB, contudo avançou bastante em áreas estratégicas. A indústria bélica que se encontrava as portas da bancarrota, foi salva, desenvolvendo-se uma indústria de defesa autônoma, com absorção de tecnologias avançadas e inúmeras possibilidades abertas com a quase consolidação dos BRICS. Lula fez sair do papel os sonhado submarino nuclear, fundamental para defesa da ZEE e do próprio país, mesmo a frota de submarinos convencionais da classe Tupi foi melhorada, os veículos blindados do exército recebeu uma nova frota, os blindados Guaranis, de fabricação nacional, ante a já superada mas exitosa classe cascavel, a EMBRAER preparava-se para construir e concomitante desenvolver caças nacionais, o Gripen-BR, com a incorporação de aviônicos e armamentos inteiramente nacionais, a tecnologia de mísseis de longa distancia deu um salto sem precedentes, da qual país nenhum do hemisfério sul detém e muito poucos dos países atualmente desenvolvidos, incrementou e lançou satélites próprios de comunicação de geofísicos, a tecnologia de informática foi inaugurada com a criação de um dos poucos centros no mundo de fabricação de micro-processadores.  Com a descoberta do pré-sal, o país se projetava como um dos futuros grandes produtores de energia, desenvolvendo paralelamente uma indústria naval potente e uma grande cadeia de fornecedores para as mais diversas necessidades, de máquinas, equipamentos, caldeiraria a sistemas informatizados de ponta. Os arquivos da Odebrecht, a frente tanto da nossa indústria de defesa, como de infra-estrutura, revelavam influência no México, Peru, Equador, Argentina, Colômbia, Guatemala, República Dominicana e Panamá, nas eleições de vários países da região, na esteira da ampliação da influência diplomática brasileira, além da notável expansão das empreiteiras na África e América Latina. Nascia uma nova potência.

Com o Golpe de 2016, o país é alçado ao mais absoluto processo colonial, todos os avanços tanto da éra Vargas como do período Lula estão sendo rapidamente destruídos, com o arrasamento completo de seu parque industrial e a destruição do setor de infra-estrutura, direitos trabalhistas e previdenciários extintos. As instituições políticas, em todas as searas, se encontram apodrecidas e sob controle externo. Chegamos a "gangrena obscura" anterior a 30, de que nos alertava Getúlio sobre os intuitos da oposição alinhada aos interesses externos, ontem representada pela UDN, na atualidade pelas diversas siglas a comungarem com o credo liberal.

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sábado, 3 de março de 2018

Sangue e Tradição - Os Elementos Caracterizadores do Nacionalismo Brasileiro.

"A Nação compõe-se dos mortos que a fundaram
e dos vivos que a mantem".
Uma Tradição própria é condição essencial para que uma coletividade humana se distingua como nação lhe conferindo caráter, como entidade coletiva dotada de personalidade. E é a sustentação dessa tradição que se manifesta sempre que uma força exógena atua contra os interesses de uma população de identidade comum. O nacionalismo surge assim como reação ideológica consciente de defesa de seus interesses, não só material, mas como expressão viva em sua afirmação de existência.

nação é um agrupamento humano, unificado, que goza de uma origem comum, como explanamos em outras ocasiões (Nacionalidade e Nacionalismo), oque implica, necessariamente, em laços de consanguinidade, bem como na consciência de comunhão desses laços, e sua consequente unificação política. Temos aí três elementos: um povo de origem comum,  consciência dessa existência nacional e unidade política.

Já o nacionalismo, uma vez existente a nação, atua na defesa do interesse nacional. Sendo expressão ideológica dessa consciência nacional, constituindo assim, uma ideologia, uma ideologia que necessariamente zele pela sua preservação em todos seus aspectos materiais e existenciais.

Os aspectos materiais envolvem a defesa dos meios materiais da nação: um território, a pátria, que constitui a defesa de sua terra ancestral, de seus pais, ou mesmo eventualmente uma expansão territorial, quando necessária para assegurar a existência nacional. A constituição de um Estado.  Mas não só, dentro dos meios materiais esta incluso todo arcabouço tecnológico, industrial, recursos minerais ou vegetais e por assim dizer econômicos de que precise a nação para seu desenvolvimento e bem estar.

Os aspectos existenciais, se ligam a defesa da nação como entidade nacional, sua constituição, em sua afirmação de existência. Entram aí os elementos caracterizadores da formação da nacionalidade, em seus mais variados aspectos: étnico, religioso, psíquico, linguístico, etc.... aspectos culturais de um modo geral por assim dizer.

No séc. XVIII, quando normandos franceses, holandeses e ingleses quiseram estabelecer-se nessas costas, Portugal já havia desaparecido como nação soberana abatido pelo inimigo tradicional - castelhano. Não seria o seu influxo que sustentaria a nova pátria, naquela luta de morte, com os povos mais fortes do mundo. A descoberta e conquista da terra, as façanhas bandeirantes, a defesa contra o invasor, deram lugar a uma consciência comum, a um sentimento da figura do ‘brasileiro'. É nessa época que desponta a consciência histórica no brasileiro e a configuração atual do Brasil com o Tratado de Madrid, conduzido pelo brasileiro Alexandre Gusmão.

Nesse sentido, é que o nacionalismo brasileiro, de longa data, por constituir uma nação já plenamente solidificada, a mais antiga das Américas e mesmo de tantas quantas existentes na Europa. Não evidencia tanto o aspecto existencial na contemporaneidade, porque já cumpriu no passado esse papel. E por assim, mais se notabilizar, nos últimos tempos, pela defesa econômica.

Resta a demanda de um Estado Nacional próprio, que defenda os interesses nacionais, brasileiros, que será sob a forma de República:
“[....] verifica-se que, justamente um século antes das luta que se converteu em reivindicação nacional, justamente nos dois centros de formação brasileira, se desencadearam, ao mesmo tempo, lutas explicitamente nacionalistas: por parte dos paulistas que, brasilicamente, designavam os portugueses como forasteiros; por parte dos pernambucanos que, desdenhosamente, nomeavam os reinós de mercantis – mascates, e chegaram a falar em independência.... Admita-se no entanto, que tais lutas ainda não sejam esforços para independência: é inegável que nos fins do Séc XVIII, com os companheiros de Tiradentes, há uma explícita reivindicação de emancipação nacional. Notemos ainda, que em todos esses movimentos, a forma esboçada política é a da República. E assim se forma a nossa tradição de autonomia nacional.” - Manoel Bomfim.
Esse regime político republicano tomará sua maturidade com o Castilhismo, único sistema político verdadeiramente brasileiro, nas figuras de Floriano Peixoto e Getúlio Vargas no plano nacional, a se sagrar com a Constituição de 1937.

Na antiguidade, três elementos eram essenciais para caracterização de uma etnia (do grego: έθνος ethnos, povo): origem comum, língua e credo. Chamamos atenção que etnia é distinto de nação. Na etnia, embora um povo comungue de uma origem comum, língua e credo, eles não se encontram unificados politicamente, caso dos helenos na Grécia clássica, que embora comungassem desses três elementos caracterizadores, não se unificaram politicamente, mesmo caso dos celtas e tupis. Porém, uma vez que se unifiquem, formam uma nação. Então, tomando como parâmetro esses três elementos, e aplicando-os aos brasileiros, temos como elementos caracterizadores da nossa etnia: uma origem luso-tupi que mais tarde se soma uma importante contribuição banta, a língua portuguesa e a religião católica.

A orígem comum, como já tratamos em outras oportunidades, não se confunde com raça, com uma uniformidade racial, mas sim com uma ancestralidade comum. Oque é bem caracterizado na formação brasileira pelo entrelaçamento lusitano e tupi, presentes em todo o território nacional e em maior ou menor grau também o elemento banto. 


O brasileiro, filho de pai norte-português e mãe tupi,
de língua galaico-portuguesa e fé católico-medieval.
Quanto a língua, foi o tupi a língua de nossa formação nacional, e um dos grandes fatores de unidade nacional. Falado do Amazonas ao Prata. Poucas línguas primitivas no curso da história, cobriu uma área geográfica tão ampla quanto o tupi. O largo emprego do tupi até meados do Séc. VXIII, mesmo por brancos, evidencia o grau de assimilação desses com o elemento nativo, e sua inserção na civilização que aqui se formava, ao mesmo tempo que desmente a falácia de que a população indígena fora exterminada. A língua foi fator também importantíssimo para incorporação de agrupamentos indigenas isolados ao longo de nossa formação, que ao tomarem contato com gente de mesma língua, se identificavam, e se deixavam absorver na civilização que se criava, a brasileira. O português se impois pelo contínuo fluxo de portugueses para o Brasil, que com a descoberta das minas, viu atingir seu pico, concomitante a uma explosão demográfica no Minho que despejou para o Brasil uma das maiores levas humanas ocorridas na história. A adoção do português como língua nacional, note.... de maneira uniforme em todo o país! Atesta, mais uma vez, a unidade nacional brasileira, diferente do que se observa nas colônias de Espanha, em que populações nativas inteiras, vivem apartadas, em clara formação de castas sociais, e que por isso, ainda hoje, conservam, como uso franco, suas respectivas línguas nativas.  

A questão criada por Lima Barreto, em sua obra "Policarpo Quaresma", de que o português não nos é próprio, é coisa sem base. Tanto o tupi como o português, nos são legítimos, porque descendemos das duas cepas, além de serem parte de nossa formação nacional. E é natural que tenhamos especial atenção e carinho pelo tupi como língua histórica. Agora, diferente seria, se nos fosse imposto falar inglês, posto não descendermos de ingleses. Seria algo artificial, e a ser renegado por um brasileiro nacionalista, ciente de sua nacionalidade e em sua defesa. 

Não se pode se dizer nacionalista quem renega suas origens. Assim é, que, só se concebe um nacionalista brasileiro católico, porque essa é a religião de sua ancestralidade, de sua identidade nacional, a qual deve honrar e manter. O catolicismo eclesiástico não nos serve. O genuíno catolicismo de um brasileiro é o popular, irmanado com seu povo, legado pelas gerações passadas, com a qual se conecta com tradições imemoriais de sua linhagem, de sua nacionalidade, criando o vínculo antigo e comum. 

Credos de matiz protestante ou qualquer outra alheias a nossa formação nacional, são peremptoriamente descartáveis, posto serem elementos anti-nacionais, que ferem e quebram a identidade nacional. Notadamente as de seitas neopetencostais que se proliferam no Brasil e na ibero-américa, ovos da serpente. 

Crenças revivalistas, de cunho pagãs, desde que deite raízes em nossa linhagem nacional são legítimas, como é o caso da antiga fé Keltaika, ou eventualmente de matiz tupi ou banta. O candomblé deve ser rejeitado, pois vem pro Brasil tardiamente no Séc. XIX, quando o Brasil já estava feito, por escravos do golfo da guiné, iorubás, que foi um contingente ínfimo na formação brasileira, restrita ao recôncavo baiano, e mesmo lá, minoritária, e portanto não constituinte da nossa formação nacional.

O mesmo princípio se aplica a todas as searas de manifestação da cultura nacional: música, literatura, língua, arquitetura, vestuário.... tudo! Absolutamente tudo que implique expressão humana advinda de um brasileiro deve se lastrear em suas tradições. 

Em fim, o aspecto cultural, é indissociável do étnico para o nacionalismo, pois somente é autêntico, quando oriundo de suas tradições orgânicas, porque só a transmissão cultural que se opera de geração para geração é caracterizadora de sua identidade nacional. Se uma cultura apresenta elementos estranhos a sua linhagem, trata-se de algo artificial, e portanto ilegitima, descaracterizadora de sua nacionalidade, e como tal, deve ser descartada.

Portanto, sendo o nacionalismo a manifestação consciente da nacionalidade, não se pode alcunhar de nacionalista eventual ideologia que não expresse a defesa dos elementos constituintes da sua nacionalidade seja em seu aspecto material ou existencial. Assim, o nacionalismo brasileiro deve expressar, necessariamente, a defesa de seus elementos caracterizadores.


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segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

Ascensão e Queda de Uma Civilização


Napoleão Bonaparte, acertadamente, dizia que o amor pela pátria é a primeira virtude do homem civilizado: " l´amour pour la patrie est la première vertu de l'homme civilisé".

O amor à pátria reflete o apreço pelo espírito público que anima a formação de uma civilização superior. Suprimindo os interesses individuais em prol da coletividade, da nação a que se esta vinculado. Disso resulta o esplendor da civilização helênica, que se estruturava numa formação marcadamente comunitária, o homem helênico vivia em função da sua pólis, materialização do sentir coletivo, a quem dedicava sua vida.

Em contra ponto, no oriente.... a ausência desse sentir coletivo, resultou em sociedades hierarquizadas, incapazes de formarem uma unidade nacional, estruturadas em castas, que segregam e impedem a formação de um corpo unitário, nacional. E que carrega em sua essência a defesa de interesses particularistas, individuais. Não existe nessas sociedades o "interesse público". O reino é propriedade do rei, os súditos são vassalos, que subsistem para servir ao rei, não existe a idéia de pátria como entidade existente para defesa nacional. Tudo se reduz a defesa privada, dos interesses particularistas, pouco importando o destino do país.

Isso é ainda mais acentuado no oriente, pela pouca vinculação do homem a terra. As unidades agrícolas no oriente eram escassas, ainda hoje assim é pela aridez de suas terras, constituindo as poucas extensões agrícolas a um soberano, marginalizando todo o restante da população. O caso se agrava pela a localização estratégica, e sua condição de rota comercial que impele essa população sem terra ao comércio, atividade estéril, que não adere o homem a terra e degrada os valores produzindo personalidades avaras, gananciosos por bens materiais.

Esse é o traço fundamental que encontramos nas populações do medio oriente, contrapostos a civilização helênica a viver um estilo de vida fortemente comunitário. A decadência grega, subvem justamente ao fim da guerra do peloponésio, o arrasamento de seus campos agrícolas, a fome decorrente, a peste, uma maior aglomeração urbana a viver do comércio, alheia ao interesse coletivo. O comerciante é todo de seu negócio e só para os lucros que dele aufere se importa.

São os sintomas que acometem o Brasil, na atualidade, sem uma classe produtiva própria, nacional, a classe mercantil (a mais prostituta de todas) são maioria e de onde sai a classe dirigente que conduz o país a ruína.

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

Bandeirismo - A Expressão Cultural de Apoio ao Estado Novo.


Ao estudarmos a Semana de Arte Moderna de 22, vemos a subdivisão que dela adveio entre o movimento Pau-Brasil que se desdobrou no movimento antropofágico, e o verde-amarelismo, esse pintado como "fascista", oque é uma deslavrada mentira. Dos três fundadores: Menotti del Picchia, Cassiano Ricardo e Plínio Salgado, apenas Plínio seguiu a vertente fascista, e mesmo quando participava, ainda não havia aderido, logo é completamente sem fundamento tal alcunha. 

De toda sorte, o verde-amarelismo tomou dois rumos a nível político: o Integralismo e o Bandeirismo. O Integralismo com Plínio Salgado e seu movimento homônimo, e o Bandeirismo com Menotti del Picchia e Cassiano Ricardo, dentre outros, de apoio ao modelo político de Getúlio Vargas. O silêncio sobre o Bandeirismo é sepucral na literatura, oque só se explica por ranço ideológico presente na oligarquia paulista, em redutos como a USP, que mais do que silenciar disseminam para o restante do país, mentiras sobre o período.

O Movimento Bandeira, foi organizado entre 1935-37 por dois dos principais poetas verde-amarelos: Menotti del Picchia  e Cassiano Ricardo. Tendo como principal meio de difusão o jornal Anhangüera.
O movimento bandeirista parte da idéia alegórica, expressa no poema Martin Cererê de Cassiano Ricardo, que narra a origem mítica da Nação por intermédio de uma “criança travessa” que deve ser orientada e disciplinada.

No que se refere a polêmica entre os movimentos políticos oriundos do verdeamarelismo, tanto o Integralismo como o Movimento Bandeira, se colocavam como defensores da unidade, pelo nacionalismo  e contra  influências estrangeiras.

O Movimento Bandeira não se colocava simplesmente como terceira via, mas como uma quarta via frente ao Comunismo, Integralismo e à Oligarquia Liberal. De modo que o Movimento Bandeira se apresentava como uma “novidade original”.


A Academia Verde-amarela.
O início oficial do Verdeamarelo se deu em 25 de julho de 1926, com a publicação de um artigo de Hélios (pseudônimo de Menotti del Picchia) no Correio Paulistano em que esse anunciava a criação da “Academia Verde e Amarela”, formada por ele, Plínio Salgado e Cassiano Ricardo.

A coletânea O Curupira e o Carão publicada em 1927, publicações de autoria coletiva dos três: Menotti del Picchia, Cassiano Ricardo e Plínio Salgado. A tríade verde-amarela afirmava que alguns desacordos não deveriam refletir na constituição do grupo, uma vez que o importante era criar um pensamento, uma arte e uma política genuinamente brasileira. Segundo esses escritores, o verde-amarelismo estava pautado na liberdade de cada um procurar o Brasil como quisesse.

Um traço essencial do verde-amarelismo era o anti-academicismo. O próprio nome “Academia Verde e Amarela” era uma sátira à Academia Brasileira de Letras e suas congêneres, com suas regras sobre como escrever uma boa literatura, estatutos e a glorificação de literatos passadistas, significando, enfim, o encarceramento da literatura em instituição.

Contra isso, o autor sugeria liberdade de criação e exaltação das características essenciais do Brasil. O objetivo principal do grupo era o “descobrimento do Brasil”. Descobrimento de toda uma riqueza cultural escondida pelo formalismo da literatura passadista e também pela interpretação errônea dada por outros grupos modernistas contemporâneos, dentre eles o da revista Terra Roxa. Dizia Hélios: “nós, filhos da terra, cantaremos suas plantas, seus animais, seus caboclos e seus heróis, com a língua nativa a que daremos nosso devotamento e nosso amor”.

A Escola da Anta e a Polêmica entre a Anta e a Loba.
A polêmica entre a anta, a loba e outros símbolos sugeridos, como o manitôs e o caracu, se estendeu aproximadamente por um mês no Correio Paulistano. No final das contas, os demais membros do grupo aderiram à causa – embora, com ressalvas – e, finalmente, elegeu-se a Anta como o símbolo da campanha verde-amarela. A eleição do símbolo acabou por determinar qual seria a linha de pensamento assumida pelo grupo a partir de então.

Menotti defendia metaforicamente, que a herança cultural brasileira provinha da loba “nas colinas do Capitólio” por intermédio dos portugueses. Ainda que reconhece-se o simbolismo racial do indígena como fator assimilatório,  atribuia ao meio ambiente, a terra, a verdadeira força de integração étnica. Plínio Salgado defendia a origem tupi:
“Nós não bebemos leite da Loba, mas sugamos o leite da Anta – totem racial brasileiro – na seiva americana! Não viemos da colina de Capitólio, mas dos planaltos bolivianos enamorados dos Ibiturunas.”

Plínio tentava sustentar que a herança tupi estava presente pela herança cultural e mesmo biológica constitutiva do brasileiro, e assim, justificar a Anta como totem.

Menotti concordava quanto a Anta como símbolo integrador de uma raça futura, contudo ainda rejeitando a raça indígena como sua delineadora.

Já Cassiano Ricardo admitia, em parte, a influência do índio, mas de forma passiva, sem maior contribuição cultural:
“Eu poderia dizer, em resumo: o indígena influiu justamente por isso. Por essa incultura que o fez pacífico e acolhedor, desconhecendo ódios de raça e preconceitos de inteligência – coisas que tanto separam os homens. E não precisava dizer mais nada. Limitar o índio a uma figura decorativa é evidente.”

A posição de Plínio Salgado, preponderou, dando ao índio tupi a personalidade constitutiva. O resultado da polêmica foi resumido meses depois de anunciado o fim do grupo, no artigo O atual momento literário, chamado de Manifesto Nhengaçu. Contudo como registra Cuccagna, a adesão dos demais, se deveu mais a conveniência do que por convencimento:
“Se, por exemplo, dois signatários do manifesto como Menotti del Picchia e Cândido Motta Filho aderiram à Anta, foi mais pelo interesse em defender objetivos sociopolíticos e culturais comuns, valorizados na luta para o prestígio e a supremacia sobre os da Antropofagia, do que pelo endosso sincero à concepção de um Brasil formado e a se formar pela ação de forças étnico-culturais tupis, que eles, conforme haviam motivado na polêmica de 1927, rechaçavam com decisão. Apenas Cassiano Ricardo, dos quatro autores que auxiliaram Plínio Salgado na composição do manifesto (além dos citados, o outro foi Alfredo Ellis Júnior) foi quem realmente abraçou boa parte das ideias indianistas da Anta e as divulgou (...) no primeiro Martim Cererê, de 1928”. In: CUCCAGNA, C.. Op. cit.. p. 213.

No final de 1927, o grupo declarou seu fim. Quem primeiramente expressou a decisão foi Menotti, que considerava acabada a tarefa. Segundo ele, as preocupações, inicialmente focadas em questões estéticas, alargaram-se, principalmente após o exame de obras tradicionais como as de Alberto Torres e de Tavares Bastos. Tomava-se consciência da realidade brasileira, o que contribuía para:
“(...) a formação de uma vasta consciência nacionalista, autônoma, pessoal, de características tão próprias, capazes de dar uma fisionomia típica aos nossos processos de vida e de trabalho, à nossa estrutura político-jurídica, às nossas tendências, à nossa língua, a tudo, enfim, que caracteriza este formidável acampamento humano, que vitoriosamente realiza a maior experimentação democrática sob os trópicos, na acertada observação de um escritor ilustre.

Alguns dias mais tarde, Plínio Salgado escreveu artigo intitulado: Matemos o verdeamarelismo, em que concordava com a dissolução. Justificava a leitura de pensadores políticos como Alberto Torres, Tavares Bastos, Euclides da Cunha, Farias Brito e Oliveira Viana, na medida em que ajudavam a pensar no “problema social brasileiro”, para com os quais outros grupos modernistas eram indiferentes.

Os verdeamarelos sentiram a necessidade de fundir, num só corpo, “a arte e o senso econômico-social, de sorte a [construir] um Brasil absolutamente novo”. Por seu turno, “uma filosofia, genuinamente brasileira, ou sulamericana, se poderia aparecer quando consolidada a unidade étnica e estabilizada a situação econômica”.

Salgado não concordava com Menotti, entretanto, quando o companheiro dizia que a missão estava finda. Ao contrário, acreditava que havia muito a fazer para atingir o objetivo de dar ao Brasil uma consciência social. “Entretanto, não devemos mais caminhar juntos. Separemos as nossas atuações. Com a mesma finalidade, lutamos conservando as nossas personalidades. Com responsabilidade própria. Pela imprensa do país, pelo livro, pela palavra.” Dizia o autor:
“Separemo-nos, para agirmos melhor. O rótulo de verdeamarelo estava já se tornando insuportável. Todas as nossas atitudes e gestos, as nossas obras literárias, a nossa atuação social era formada segundo regras e fórmulas de tal grupo. Éramos os verdeamarelos. A nossa combinação libérrima estava, de tempos para cá assumindo um caráter de intolerância literária e doutrinária. E estando nós num regime de procura, as realizações transitórias que íamos efetivando já vinham (sic) tomadas como modelos. Acabaríamos tornando-nos acadêmicos. Teríamos os nossos preconceitos. E, afinal, o verdeamarelismo terminaria por formar corpo de doutrina, assimilando-nos, sem que o percebêssemos. Matemos o verdeamarelismo. Era mais um ismo. Não queremos mais ismos. Queremos, agora, entrar num período fecundo de arte, com um alto sentido social.”

Somente após alguns meses depois de encerradas as atividades, em 17 de maio de 1929, Menotti, Plínio, Cassiano, Alfredo Elis, e Cândido Mota Filho lançaram um texto no Correio intitulado O atual momento literário, por ocasião do ingresso dos quatro primeiros na Academia Paulista de Letras, oque foi motivo de deboche por parte dos antropofagistas, ante a incongruência de se dizerem anti-acadêmicos e contraditoriamente ingressarem na Academia. O texto procurava ser uma explicação da orientação do grupo “na obra de renovação intelectual brasileira” e, mais tarde, ficaria conhecido como Manifesto Nhengaçu Verdeamarelo.

Em sua escrita memorialista, Cassiano Ricardo afirma que a diferença entre o verde-amarelismo e a Escola da Anta, é que este último era inspirado pelas obras de Alberto Torres, Barbosa Rodrigues, Couto de Magalhães, Roquete-Pinto e Alarico Silveira.

Cassiano Ricardo relata que defendia que ele e Plínio Salgado “deveriam se entender” sobre o Integralismo. Cassiano Ricardo convidou Plínio para dialogar sobre “o partido que ele iria fundar”, nesta conversa, lembrou que, se eles haviam combatido os “ismos” literários de importação na década de 1920, então “por que [deveriam] importar” um “outro ‘ismo’ mais grave porque político-ideológico”. Na ocasião, o poeta defendeu a opinião de que o grupo deveria se chamar Bandeirismo ou “qualquer outro ‘ismo’ histórico” brasileiro. Imbuído da subjetividade e veracidade pertencente a escrita memorialista, Cassiano Ricardo afirma que Plínio prometeu “estudar melhor o problema”, mas dias depois, o poeta viu um “grupo integralista em formação paramilitar, com seus ‘anauês!’ e sinais do sigma”. Esses relatos memorialistas expõem o ressentimento de Cassiano Ricardo frente a recusa de Plínio Salgado em rever seu interesse em fundar o Integralismo sob signos contrários a estética defendida pelo poeta.

Anos posteriores a fundação da AIB, Cassiano Ricardo expõe sua não adesão ao Integralismo em seu ensaio O Brasil no original (1937, p. 136) – livro propaganda do Movimento Bandeira – o ensaísta afirma que não sabe:
por que cargas d’água o encarregado de redigir esse […] documento revolucionário de 32 foi Plínio Salgado. Só sei que convidado a escrevê-lo, o atual chefe do Integralismo cometeu a maior perfídia que um homem de inteligência poderia cometer: deu feição política às ideias literárias que o “Correio” […] vinha publicando desde 1922.

Tanto Menotti quanto Plínio eram descrentes do liberalismo, mas Plínio, explica Menotti: “já pendia para a direita e eu para o ideal trabalhista”. Menotti ainda lembra que, por não concordar com sua orientação, ele juntamente com Candido Motta Filho, Cassiano Ricardo, Alfredo Ellis Jr. e outros, separaram-se do líder integralista e organizaram o movimento da “Bandeira”, pela a adoção por parte do Integralismo das influências estrangeiras.

Cassiano Ricardo explica que inicialmente o movimento modernista foi dividido em dois grupos, os quais poderiam explicar “a superfetação da esquerda e da direita”: o Integralista e o Bandeirismo. Embora tendo origem no mesmo movimento literário (verde-amarelismo), Cassiano Ricardo afirmava que as diferenças eram radicais: 
1. a oposição ao “caráter internacionalista” da AIB, pois a “Bandeira” é nacionalista; 2. a AIB é “contra a liberdade individual” e a Bandeira é “pela valorização do indivíduo como ser social”; 3. a AIB é contrária à “autonomia dos Estados” e a “Bandeira é federalista”; 4. a AIB é pelo racismo, já a Bandeira é pela valorização das contribuições de cada raça; e 5. a AIB é “um partido político” enquanto a Bandeira é um movimento cultural.


Ressalva que na comparação entre o “chefe da Bandeira” e “o chefe fascista”; o primeiro “dispensa o copiado figurino romano”. Por essas razões, Cassiano afirmava que tal “fascismo redundaria num artifício, numa caricatura. Seria uma imitação desajustada e grosseira”. Por essas razões, advertia que os brasileiros deveriam refletir:
"Hoje, como quando o sertão era um jogo livre de forças descêntricas […] o mundo apresenta o mesmo espetáculo alarmante e agressivo. Retornar ao espírito das “bandeiras” é a única forma de recompor, dentro da disciplina e da força do comando, as energias que se anulam, se combatem e se dispersam. Não é preciso procurar fora de nossa Pátria, no exotismo de fórmulas políticas de enxerto a estrutura espiritual de nosso grupo humano, uma vez que nossa própria história contém o esquema seguro e instintivo das normas sociais que criaram uma nacionalidade."

Prevenindo contra o comunismo, os redatores anhangüeras perguntavam: a “Bandeira é Comunista?”. A resposta é categórica: “Não […] porque é pela Pátria, pela religião e pela família” (ANHANGUERA, 1937, 29 de junho, ano 1, n. 3, p. 3). Os bandeiristas questionavam: “se a Bandeira é por Deus, pela Pátria e pela família, será acaso fascista?”. A resposta também é direta: “Não”, pois se o Fascismo era “uma solução nacional italiana […] não podia ser uma solução brasileira”. Menotti del Picchia (1936, p. 9), considera que a tríade “Deus, Pátria e Família” era fundamento da civilização cristã, sendo o Brasil criado sob esse signo; a Bandeira defendia esses princípios. Completando o argumento de Picchia, Cassiano Ricardo afirma que mesmo tendo como ponto de encontro a tríade “Deus, Pátria e Família”, existia vários pontos de desacordo entre a AIB e o Movimento Bandeira.

Sobre a posição dos “novos bandeirantes” entre a tensão capital e o trabalho. Os bandeiristas argumentavam que o comunismo russo não abolira o capital, apenas transferiram para o Estado e aboliram as iniciativas privadas. Também questionavam o conceito de “ditadura do proletariado”, uma vez que, segundo eles, no Brasil não existia um “proletariado”. Segundo os bandeiristas, para justificar sua “sangrenta doutrina no Brasil”, os comunistas repetiam como “papagaios, as fórmulas de sua mística”, inventando que entre nós também existe o “camponês”. O que temos, de acordo com os “novos Bandeirantes”, são “trabalhadores, cheios de tarefa [...] dispostos a mandar às favas todos os Lenines, Prestes, Trotzkis, Bergers e Stalins”. 


De acordo com a posição dos bandeiristas, o “paraíso terreal revelado pelo Integralismo ao operariado corre parelhas com o céu rasgado pela demagogia bolchevista” (ANHANGUERA, 1937, 9 de agosto, n. 37, ano 1, p. 3). E concluíam: “parece que foi um comunista escarlate quem concebeu a doutrina” e, “apesar dos disfarces”, é “apenas uma denominação nova à sovietização”. Os bandeiristas perguntavam o que seria do “operariado, sem direito de pensar, desarmado, fiscalizado pelos capatazes do sigma, obrigados a bradar trinta ‘anauês’ por dia” e, ao menor protesto, ser atirado “nas algemas do inferno disciplinador”

No que se refere à solução da tensão entre trabalho e o capital defendida pela AIB, os “novos bandeirantes” afirmavam que somente havia “promessa e divagação” e que os integralistas pretendiam transformar o Brasil em um “Estado policial […] senhor da produção e ordenador absoluto da atividade obreira”.

Os “novos bandeirantes” defendiam “que o trabalho e o capital” eram duas forças que precisavam ser harmonizadas. Para eles, o capital tinha “seu complemento no trabalho”, daí a necessidade de se criarem leis trabalhistas que harmonizem “os interesses do empregador com os dos empregados”, de forma que o Estado protegesse as “classes menos favorecidas sem atentar os interesses das classes capitalistas”. A respeito dessa posição, os “novos bandeirantes” acusam o Comunismo de destruir a autoridade e o Integralismo por ser irracional frente à autoridade. Os bandeiristas afirmam que, para que se justificasse a aplicação do Comunismo ou do Integralismo no Brasil, era preciso ter os mesmos problemas da Rússia, Alemanha ou Itália. Além da ausência de características para suas implantações, os “novos bandeirantes” também criticavam o imperialismo russo, italiano e alemão na Europa.

Em seu ensaio O Brasil no original, Cassiano Ricardo alerta que em razão das eleições marcadas para 1938, os integralistas vinham falando de democracia. E por isso, defende que até nisso a AIB faz “pensar no Fascismo e no hitlerismo que, de vez em quando, também se dizem adeptos da democracia”. Segundo os bandeiristas, essa era outra incoerência dos integralistas, uma vez que eles se colocavam “contra o voto, mas votavam. Eram contra os partidos, mas eram um partido. Eram contra a democracia, mas só existiam por favor da democracia”. Paralelamente a afirmação de que os integralistas se pareciam com o Fascismo europeu ao se aproveitarem da democracia, os bandeiristas afirmavam que o grupo de Plínio Salgado eram uma cópia. De acordo com os bandeiristas, são copiadas as camisas, o “sigma, que é um disfarce da cruz suástica”, e o “gesto romano, que nunca foi nosso”. Para os “novos bandeirantes”, o “Chefe verde” é o “maior plagiador” de estrangeirismos, sendo o Estado Integralista uma “transposição ipisis literis do Estado totalitário corporativo fascista”. Segundo eles, a AIB copia “a doutrina, a organização, a técnica, o ritual”, até a “maneira de falar do seu chefe”.

A respeito do “fenômeno nacional”, Cassiano Ricardo propõe que não “se trata de uma democracia que só funcione em razão dos partidos”, do direito ao voto concedido pelos “direitos políticos” ou da confusão que “Fascismo e Comunismo praticam para iludir massas”. Ressalta, ainda, que, frente a essas confusões, “o conceito de democracia” não “pode sofrer deturpação” e que, para não haver deturpação, o Bandeirismo seria o movimento que organizaria a democracia, “modernizando-a, limpando-a da politicagem” (RICARDO, 1937, p. 227-228).  Frente a um regime que funcione em razão dos partidos, do direito ao voto e das confusões das “duas pragas”, Cassiano Ricardo propõe uma “forma de governo” que melhor “assegure a sua existência” (RICARDO, 1937, p. 228). Para os “novos bandeirantes”, a única forma capaz de recuperar a originalidade nacional é a Democracia Social Nacionalista. No artigo “Os três caminhos”, escrito para o jornal Anhanguera – e como de costume, sem autor declarado –, os bandeiristas defendem o ideal “nem bolchevismo, nem Fascismo”, nem “Democracia Liberal”, mas a “Democracia Social Brasileira” (ANHANGUERA, 1937, 4 de agosto, ano 1, n. 33, p. 3).